Mapas de Portugal

Viagem de Pedro Álvares Cabral – Parte II

Projecto: Mapas de Portugal

Técnica: Trabalho de Astrologia Mundana

Na primeira parte deste trabalho escrevi sobre o período que decorreu entre a chegada da armada de Vasco da Gama e a partida de uma nova da armada para a Índia, a de Pedro Álvares Cabral. Na segunda parte deste trabalho, vamos analisar a partida da armada de Pedro Álvares Cabral.

O Comércio com a Índia

A pimenta, a canela, o cravinho e o gengibre, que Vasco da Gama descarregou nas docas de Lisboa, embora não fossem em grandes quantidades, forneceram mesmo assim um retorno impressionante de 6.000%, “de hum se fazião sesenta”. Apesar disso, os dividendos comerciais não foram suficientes para compensar o investimento na viagem. A próxima armada deveria levar fundos mais adequados para o comércio, em vez dos insignificantes presentes de Vasco da Gama, e os navios deveriam ter mais espaço de carga para as especiarias.

Portugal encontrava-se então numa situação financeira difícil. D. João II, apesar da fama de austero, deixara para o seu sucessor um conjunto de dívidas, que ascendiam a mais de 13 milhões de reais, e que constituíam um pesado encargo para a coroa portuguesa. A descoberta do “caminho marítimo para a Índia” apresentava-se como uma oportunidade única para reverter a situação financeira do país e ganhar glória junto dos outros reinos cristãos. Passadas poucas semanas sobre a chegada de Vasco da Gama, D. Manuel pediu para a Igreja confirmar e expandir a exclusividade de Portugal no comércio com a Índia. A partir do Verão de 1499, que D. Manuel passou a usar o título de ‘Rei de Portugal e dos Algarves daquém e dalém mar em África, senhor da Guiné e da conquista, Navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia’.

Durante a sua estadia na Índia, Vasco da Gama tinha observado, em Calicute, a dimensão gigantesca do comércio de especiarias, bem como a importância dos navios muçulmanos e a fraca protecção dos mesmos. Era um cenário demasiado tentador para quem estava habituado a combater os mouros no norte de África. Os portugueses tinham de impedir os “mouros” de fazer comércio com as especiarias. Mas faltavam os recursos financeiros! O que não constituía um problema quando um quintal (50kg) de pimenta podia ser comprado a três ducados na ribeira de Calicute, e vendido a sessenta ou setenta ducados em Veneza. As casas comerciais europeias estavam mais que dispostas para emprestar a D. Manuel o que fosse necessário: as moedas de ouro, que os indianos pediam como pagamento pelas especiarias; o financiamento dos navios e das tripulações; os seguros marítimos …

A viagem da Vasco da Gama tinha aberto uma nova rota para o comércio das especiarias, que dispensava os muitos intermediários, que desde a remota origem dos produtos até à sua presença nos mercados europeus, faziam aumentavam o seu preço. No entanto, devido à reduzida quantidade de especiarias transportadas na primeira viagem, os mercadores europeus duvidaram que Vasco da Gama tivesse, de facto, chegado à Índia. A próxima viagem teria que dissipar, definitivamente, essas dúvidas.

A Armada de 1500

Em Março de 1500, apenas seis meses passados sobre o regresso de D. Vasco – tinha recebido título de D. Manuel a 10 de Janeiro - uma nova armada estava ancorada no Tejo. Eram treze navios, com cerca de mil e duzentos homens embarcados, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, e apoiados na experiência de Nicolau Coelho, de Bartolomeu Dias e do seu irmão Diogo, de Pêro de Escobar e de João de Sá. Apesar de menos de um terço das tripulações de Dom Vasco terem regressado, estas tinham sido tão bem pagas, que foi fácil contratar voluntários para esta segunda viagem.

A armada era constituída por nove naus, navios grandes de pano redondo, e por quatro navios mais pequenos. Os seus capitães foram Pedro Álvares Cabral, por capitão-mor, Sandro de Tovar, por sota-capitão, Simão de Miranda, Aires Gomes da Silva, Bartolomeu Dias, Nicolau Coelho, Vasco Ataíde, Diogo Dias, Pêro de Ataíde, Nuno Leitão, Gaspar de Lemos, Luís Pires e Simão de Pina. Duas das naus, e parte da carga embarcada em Lisboa, eram propriedade de dois mercadores florentinos, residentes em Lisboa, que investiam assim directamente no comércio com a Índia.

D. Manuel queria, com esta segunda viagem, apagar a fraca opinião que D. Vasco tinha deixado em Calicute. Queria enviar uma embaixada que honrasse devidamente o seu Rei, o “Samorim”, que D. Vasco considerara cristão. Assim, e pela primeira vez, o comando da armada era entregue a um membro da nobreza tradicional portuguesa, Pedro Álvares Cabral. A quem a própria nobreza admirou a coragem por aceitar um cargo tão pouco apetecível, pela incerteza do que dele se podia esperar.

A Partida

"Ao outro dia pela manhã a que foram nove de Março de mil, & quinhentos, partio a frota do porto de Bethelem com bom vento de foz em fora"

Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel, Damião de Goes

 

Aparelhada a armada, foi a sua partida marcada para 8 de Março de 1500, no início da estação da navegação. Mas devido ao vento, a frota acabou por partir apenas na manhã do dia seguinte, a 9 de Março, dois dias antes do equinócio da Primavera. Para encontrar o horóscopo da partida, vamos fazer os cálculos das marés como se fossemos um dos pilotos da armada.

Comecemos por consultar o Almanach perpetuum, do Rabi Abraão Zacuto, publicado em Leiria em 1496. Como a partida da armada ocorreu antes do equinócio da Primavera de 1500, temos que consultar as tabelas do ano anterior. Na tabela de Conjunções e Oposições dos Luminares, referente a 1499, ficamos a saber que a última lunação, uma Lua Nova, ocorreu no dia 28 de Fevereiro, uma sexta-feira, às 18 horas e 4 minutos. Mas atenção que as horas indicadas no Almanach correspondem ao dia dos astrónomos, ou seja, são contadas as partir do meio-dia. Assim, as horas indicadas na tabela correspondem às 6 horas e 4 minutos, do dia 29 de Fevereiro, do calendário juliano. Nesse dia, a Lua passou pelo meridiano de Lisboa às 12 horas e 46 minutos. Considerando o Estabelecimento do Porto de Lisboa, que é de 2 horas e 14 minutos, podemos dizer que nesse dia a maré cheia ocorreu às 15 horas e 0 minutos.

Quando ocorreu a Lua Nova acima indicada faltavam 9 dias para a partida da armada. Isto significa que, no dia da partida, a Lua tinha um atraso, conhecido como a “Idade da Lua”, correspondente aos 9 dias, sobre a hora da Lua Nova. Assim, se multiplicarmos por 9 o atraso diário da Lua, 49 minutos, chegamos ao valor de 7 horas e 21 minutos. Que adicionadas às 15 horas e 0 minutos, em que ocorreu a maré cheia da Lua Nova, temos a hora da maré cheia no dia 9 de Março, no estuário do Tejo, às 22 horas e 21 minutos .

Correspondendo a maré cheia ao ponto máximo da enchente, vamos procurar quando é que se verifica a vazante que nos vai permitir passar a barra do Tejo. Se retirarmos 6 horas e 12 minutos à maré cheia, temos a maré vazia anterior às 16 horas e 9 minutos. Se voltarmos a retirar 6 horas e 12 minutos, temos a maré cheia anterior às 9 horas e 57 minutos. Com mais de 3 horas desde o nascer do Sol, e os preparativos feitos no dia anterior, e se o vento o permitiu, a saída da armada de Pedro Álvares Cabral deve ter ocorrido com a vazante que se seguiu a esta maré cheia.

Se dermos mais meia hora para a corrente da vazante se começar a sentir, as 10 horas e 30 minutos apresentam uma boa probabilidade de ter sido a hora de partida da Armada. Vamos analisar o horóscopo no momento, à luz da Astrologia Horária:

Mapa Astrológico

 

A nossa primeira observação é que os eixos se encontram sobre signos duplos, o que indica a viagem não vai ser rápida, e que a frota vai sentir dificuldades com o tempo. A presença do Sol e de Júpiter, na Casa X, são sinais claros de que a viagem vai ser um sucesso.

O Ascendente e a Lua representam a frota, enquanto o regente do Ascendente representa as tripulações dos navios. Tanto a cúspide do Ascendente em Gémeos, como o próprio regente do Ascendente, Mercúrio, indicam qual é o objectivo principal da viagem: o comércio. Por outro lado, a Lua encontra-se forte em Caranguejo, na Casa II, a indicar que os navios vão conseguir encher os seus porões. Embora, como a Lua faz uma quadratura exacta à Vénus, na Casa XI, o carregamento vá ter que ser feito num ambiente de hostilidade latente entre os indianos. A grande fraqueza de Mercúrio, na Casa X, representa a notória falta de qualificações das tripulações para fazerem o comércio nos mercados locais.

A presença de Júpiter, forte em Peixes, na Casa X, a da honra, indica que a viagem vai ser um grande sucesso diplomático. O qual vai contribuir positivamente para encher os porões dos navios, com um trígono da Lua a Júpiter, embora com algum atraso, devido a um Sextil da Lua a Saturno. Na Casa X, também se encontra o Sol a indicar honra e glória para o capitão-mor e para as tripulações. Mas como o Sol se encontra fraco, a glória não será extraordinária.

O sextil que a Lua, a significadora universal do mar e da viagem, aplica a Saturno indica que são de esperar dificuldades com o tempo, e a perda ou destruição dos navios. O aspecto entre os dois planetas é harmonioso mas a presença de Saturno na Casa XII, a das limitações, a sua fraqueza em Touro, e a sua regência sobre a Casa VIII, a da morte, não lhe permite dar nada de bom, antes pelo contrário. Estando a Lua lenta e a 4 graus de distância do Saturno, este deverá fazer sentir o seu impacto entre o 2º e o 4º mês de viagem.

Para terminar, é interessante notar que, tanto Júpiter como Mercúrio, que estão na Casa X da viagem, se encontram na Casa II do horóscopo do Equinócio da Primavera de 1500, para Portugal. Esta viagem vai ser muito importante para a economia de Portugal.

 


No dia 9 de Março de 1500, Pedro Álvares Cabral partiu de Lisboa com uma armada de 13 navios, para fazer comércio na Índia. Tinha por missão principal representar diplomaticamente o Rei de Portugal junto dos soberanos indianos e fazer o comércio das especiarias.

A 23 de Março, nos mares do arquipélago de Cabo Verde, a nau de Vasco de Ataíde perdeu-se da frota, tendo regressado a Lisboa em mau estado.

A 22 de Abril, quando a frota atravessava o Atlântico Sul, mais para ocidente do que tinha feito Vasco da Gama, foi avistada uma terra a que foi dada o nome de Ilha de Vera Cruz. Depois de dez dias de exploração e intercâmbio com os habitantes locais, a frota partiu em direcção à Índia, e o navio de Gaspar de Lemos foi enviado de regresso a Lisboa, para dar a notícia do descobrimento ao Rei D. Manuel.

Na passagem pelo Cabo da Boa Esperança, a 28 de Maio, uma tempestade súbita dispersou a frota e perderam-se quatro naus e um navio pequeno. Quatro deles, o navio de Bartolomeu Dias e as naus de Simão de Pina, Vasco de Ataíde e Gaspar de Lemos, nunca mais foram vistos. A quinta, a nau de Diogo Dias, encontraria mais tarde a frota, em Cabo Verde, mas já na viagem de regresso.

A 13 de Setembro, a frota chegou à vista de Calicute. Pedro Álvares Cabral apresentou-se como embaixador do Rei de Portugal, mas a desconfiança imperou desde o início, e passados alguns meses, em Dezembro, a concorrência comercial acabou por destruir a feitoria e matar mais de cinquenta portugueses. Em represália, Pedro Álvares Cabral destruiu as embarcações que se encontravam no porto de Calicute, e matou as suas tripulações. Dirigiu-se depois para Cochim para carregar as naus.

A 10 de Janeiro de 1501, Pedro Álvares Cabral evita o combate com uma armada de Calicute e inicia a viagem de regresso a Portugal, com seis navios carregados de especiarias. Em Cochim ficaram oito portugueses para estabelecer uma feitoria. Durante a viagem de regresso a nau de Sandro de Tovar encalhou num baixio e teve que ser abandonada pela tripulação.

Pedro Álvares Cabral chegou a Lisboa a 21 de Julho de 1501, com cinco navios carregados de especiarias. Feitas as contas, a viagem teve um retorno financeiro que dobrou o custo da expedição, incluindo as perdas dos navios e das tripulações. Estava confirmada a viabilidade financeira da rota do Cabo da boa Esperança.

Fim.

 

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