Mapas de Portugal

Primeira Viagem de Vasco da Gama – Parte III

Projecto: Mapas de Portugal

Técnica: Trabalho de Astrologia Natal e Mundana

 

Uma vez satisfeita a ansiedade de D. Manuel I, com a consulta ao Rabi Abraão Zacuto, continuaram os preparativos para a grande viagem nos estaleiros de Alcântara, em Lisboa. Às duas naus em construção, a S. Gabriel e a S. Rafael, juntou-se uma outra, a Bérrio, e um navio de mantimentos. Este último destinado a acompanhar a armada até ao Cabo da Boa Esperança, para depois ser queimado.

 

Já com a armada fundeada frente ao Restelo, juntou-se-lhe uma caravela, a de Bartolomeu Dias, com a missão de acompanhar a armada até Cabo Verde, seguindo depois para S. Jorge da Mina.

 

A descrição da armada é o ponto de partida para o nosso trabalho. Para ela poder sair do Tejo eram necessárias duas condições ambientais: um bom vento de Norte ou Nordeste, suficiente para encher as velas, e uma corrente vazante, para conduzir a armada na direcção da barra do Tejo.

 

Relativamente ao vento não temos forma de saber como é que ele se comportou no dia 8 de Julho de 1497. O regime de ventos não tem um padrão definido, principalmente junto à costa, onde todos os obstáculos podem provocar mudanças no seu comportamento.

 

Mas com as marés é diferente. O seu comportamento é conhecido desde a antiguidade e obedece a regras bem definidas. E for possível saber como se comportaram as marés no rio Tejo, no dia 8 de Julho de 1497, vamos poder fazer uma aproximação à hora de partida da primeira armada de Vasco da Gama.

 

A Física das Marés

 

Se não é amante da física pode saltar este capítulo. No entanto, é nele que são apresentadas as bases para o cálculo do nosso horóscopo.
Na superfície da Terra, devido à sua posição no sistema solar, fazem sentir essencialmente as atracções gravíticas do Sol e da Lua. E a força, resultante destas atracções, com uma maior influência da Lua, não é a mesma em todos os pontos da superfície terrestre. É maior do lado que se encontra virado para a Lua, e menor do lado que se encontra afastado deste astro. É esta força, denominada força das marés, que responsável pelo fenómeno das marés oceânicas.

 

Devido ao movimento de rotação da Terra, responsável pela dualidade dia/noite, verificam-se nas zonas costeiras e nos estuários dos rios, praticamente todos os dias, duas marés-cheias e duas marés vazias. As marés-cheias ocorrem quando a Lua passa pelo meridiano do lugar, e as marés vazias quando a Lua se encontra na posição perpendicular.

 

A reforçar este comportamento temos, na Lua Nova e na Lua Cheia, isto é, duas vezes por mês, a soma das forças de atracção da Lua e do Sol, que produz as mais fortes marés cheias do mês, denominadas marés vivas. E, também duas vezes por mês, quando a Lua se encontra em quadratura com o Sol, a subtracção das suas forças, que produz as mais fracas marés vazias do mês, denominadas marés-mortas. Estes comportamentos são mais espectaculares quando se verificam os Equinócios da Primavera e do Outono.

 

A cada maré corresponde um período de cerca de 6 horas e 12 minutos, em que se verifica um movimento de enchente (na maré cheia) ou de vazante (na maré vazia). A força da corrente é nula no momento da maré vazia, vai ganhando força durante as três horas seguintes (meia-maré), para a perder progressivamente até ao momento de maré-cheia, onde é novamente nula.

 

Finalmente, existem ainda dois aspectos a ter em conta no comportamento das marés. Primeiro, o atraso diário verificado no nascimento da Lua, correspondente a 49 minutos, faz com que as marés apresentem, entre dias consecutivos, esse mesmo atraso. Segundo, com o movimento de rotação da Terra, o movimento dos oceanos provoca atrito sobre a crosta terrestre, que introduz um adiamento na maré relativamente ao momento em que ocorre a maré-cheia ou a maré vazia. Esse atraso é constante para cada lugar e, nos portos, tem a designação de Estabelecimento do Porto (E.P.).

 

Felizmente, hoje em dia temos as tabelas de marés. Mas a previsão do comportamento da maré é uma informação que nenhum marinheiro, mesmo na actualidade, pode ignorar quando sai para o mar. Quando se embarca, quer-se chegar ao destino. “Quem vai ao mar, aparelha-se em terra”, ou seja, prepara-se antes de embarcar.

 

A Viagem de Vasco da Gama

 

“Partimos de Restelo um sábado, que eram 8 dias do mês de Julho, da dita era de 1497”. Com esta frase do Roteiro da Primeira Viagem de Vasco da Gama ficamos a saber o local e o dia de partida da armada. Analisando o comportamento da maré nesse dia, vamos poder saber aproximadamente a hora da sua partida.

 

Vamos fazer o cálculo das marés como fossemos um dos pilotos da armada: Pêro de Alenquer, Pêro de Escobar ou João Coimbra. Qualquer deles era um mestre na arte da navegação, com uma larga experiência ganha ao longo da costa africana.

 

Comecemos por consultar o Almanach perpetuum, do Rabi Abraão Zacuto. Na tabela de Conjunções e Oposições dos Luminares, referente a 1497, ficamos a saber que a última lunação, uma Lua Nova, ocorreu no dia 29 de Junho, uma quinta-feira, às 18 horas e 22 minutos. Mas atenção que as horas apresentadas no Almanach correspondem ao dia dos astrónomos, ou seja, são contadas as partir do meio-dia. Assim, as horas indicadas na tabela correspondem às 6 horas e 22 minutos, do dia 30 de Junho, do calendário juliano.

 

Quando ocorreu esta Lua Nova faltavam 8 dias para a partida da armada. Isto significa que, no dia da partida, a Lua vai ter um atraso, conhecido como a “Idade da Lua”, correspondente aos 8 dias, relativamente à hora da Lua Nova. Assim, se multiplicarmos por 8 o atraso diário da Lua, 49 minutos, chegamos ao valor de 6 horas e 32 minutos. Que adicionadas às 6 horas e 22 minutos em que ocorreu a Lua Nova, temos a hora teórica da maré-cheia no dia 8 de Julho, 12 horas e 54 minutos. Estou a dizer a hora teórica, porque nos falta ainda considerar o Estabelecimento do Porto de Lisboa, que é de 2 horas e 14 minutos. Agora sim. No dia 8 de Julho de 1497, no estuário do Tejo, a maré-cheia ocorreu às 14 horas e 58 minutos.

 

Correspondendo a maré-cheia ao ponto máximo da enchente, vamos procurar quando é que se verifica a vazante que nos vai permitir passar a barra do Tejo. Se retirarmos 6 horas e 12 minutos ao tempo da maré-cheia, temos a maré vazia anterior às 8 horas e 46 minutos. Com apenas 2 horas de vazante, desde o nascer do Sol até à maré-vazia, e tendo que realizar as cerimónias em terra, não havia tempo suficiente para partir em segurança.

 

Se, por outro lado, considerarmos a vazante das 6 horas seguintes à maré-cheia, tinham tempo mais que suficiente. Para efectuar os preparativos e, logo que possível, levantar as âncoras e passar tranquilamente a barra do Tejo. Como os preparativos decorreram durante todo o dia, penso que as 15 horas e 30 minutos apresentam uma maior probabilidade de ter sido a hora de partida da Armada. Vamos analisar o horóscopo no momento, à luz da Astrologia Horária:

Mapa Astrológico

 

A nossa primeira observação vai para os planetas posicionados nos ângulos. A presença de Júpiter, na Casa I, e de Vénus, na Casa X, são sinais claros de que a viagem será bem sucedida, com especial incidência na viagem de ida. A Lua, significadora universal do mar, e neste caso particular também desta viagem, está rápida e ocidental, sobre um signo fixo, no Ascendente, o que indica que a viagem será longa, mais do que seria de esperar pela distância a percorrer, e que terá problemas e dificuldades.

 

Júpiter, encontra-se especialmente bem posicionado na Casa I, a controlar também as Casas II, representante da economia. Esta viagem deve trazer riquezas e abundância para os portugueses. Vénus, posicionada junto ao Meio-do-Céu, diz-nos que a viagem irá decorrer normalmente num ambiente agradável e de boa companhia. Digo normalmente, porque como o planeta não tem força nesta posição, são de esperar também desentendimentos, situações pouco agradáveis.
Sendo o regente do Ascendente, Marte, vão surgir maus ventos durante a viagem. A sua ligação com a Lua, significadora da viagem, fortalece a coragem e a confiança do Capitão-Mor e dá-lhe a vitória sobre os seus inimigos.

 

Nos assuntos relativos a viagens marítimas temos que analisar a Casa IX. A presença do Sol e de Mercúrio, nesta casa, permitem-nos concluir que será uma viagem de comércio e que trará riqueza, honra e fama. Mas com peso e medida, porque, mais uma vez, os planetas não se encontrarem fortes nas suas posições, apesar de contarem com o apoio do benéfico Nó Norte e da Lua, junto ao Ascendente. A parte da honra e fama levará mesmo algum tempo a chegar, devido ao aspecto do Sol a Saturno, sempre bom a provocar atrasos.
A saúde das tripulações também será um problema, como a presença de Saturno na Casa VI indica. Sofrerão de uma doença lenta, relacionada com os ossos.


No dia 8 de Julho de 1497, Vasco da Gama partiu com uma armada de Lisboa, para descobrir o caminho marítimo para a Índia. A viagem pelo Atlântico decorreu sem grandes problemas e, a 22 de Novembro, dobrou o Cabo da Boa Esperança. Pouco depois, na angra de São Brás, desfizeram a nau dos mantimentos.

Em Fevereiro de 1498, durante o período de limpeza das naus, adoeceram muitos homens com sinais de escorbuto. A 2 de Março, atingiram a ilha de Moçambique, onde tiveram o primeiro apoio de um piloto muçulmano. A 6 de Abril, a nau São Rafael encalhou nuns baixios mas, felizmente, com a maré-cheia, ficou novamente a navegar. No dia seguinte, a armada lançou as âncoras junto da cidade de Mombaça.

A partir daqui, às dificuldades colocadas pela navegação, somaram-se as dificuldades colocadas pelos comerciantes muçulmanos. O oceano Índico era um mar muçulmano, e os portugueses, além de serem inimigos religiosos, vinham introduzir concorrência nas suas rotas comerciais. Onde cada um defendia os seus interesses, da melhor maneira que sabia e podia. Mombaça decidiu-se pela agressão aos portugueses, Melinde escolheu a troca de presentes. E, foi o rei desta última cidade, que entregou a Vasco da Gama um piloto para o levar directamente a Calecut.

A chegada à Índia, a 20 de Maio, foi um feito notável. Vasco da Gama conseguiu, durante praticamente um ano, atravessar por “mares nunca dantes navegados” e chegar a Calecut, sem perder uma única nau.

O regresso a Portugal teve início a 30 de Agosto, com as naus carregadas de especiarias e de pedras preciosas. Com uma paragem na ilha de Angediva, para a limpeza das naus, a 5 de Outubro, Vasco da Gama iniciou a travessia do Índico. Mas os ventos contrários e as calmarias, a que a armada foi sujeita durante os três meses seguintes, quase terminam com a expedição. O escorbuto voltou a dar sinais e os homens aptos ficam reduzidos ao 7 ou 8 por nau. Felizmente, a 3 de Janeiro de 1499 voltam a avistar terra. Poucos dias depois, lançaram fogo à São Rafael por não haver gente suficiente para navegar com as três naus.  

A 20 de Março, dobraram novamente o Cabo da Boa Esperança. Esgotados, no limite das suas capacidades, seguiram a corrente de Benguela, e a 22 de Abril, fundearam nos baixios do Rio Grande. A etapa seguinte iria levar Nicolau Coelho, no comando da Bérrio, directamente a Lisboa. Entrou no estuário do Tejo, a 9 de Julho de 1499, com a notícia da descoberta.

Entretanto, Vasco da Gama, com o irmão gravemente doente, chegou à ilha de Santiago. Deixou aí a São Gabriel, em reparações, e partiu numa caravela para os Açores. Paulo da Gama viria a morrer um dia após a sua chegada à ilha Terceira. Vasco da Gama chegou a Lisboa a 29 de Agosto.

 

E cheguei ao fim. Foi extremamente gratificante abordar esta viagem sob o ponto de vista astrológico. Descobri muito sobre a nossa história e sobre a astrologia. Fiquei a conhecer melhor a obra dos nossos matemáticos, cuja contribuição foi decisiva para o sucesso da navegação marítima portuguesa dos séculos XV e XVI. Mas está tudo por fazer. Existem inúmeras referências à astrologia, nos textos antigos, que merecem uma investigação mais aprofundada. Ficam para trabalhos futuros.

 

Acima de tudo, espero que tenha gostado.

 

Bibliografia:
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