A Batalha de Aljubarrota – Parte I
Projecto: Mapas de Portugal
Técnica: Trabalho de Astrologia Mundana e Natal
A 6 de Abril de 1385, D. João, o Grão-Mestre de Avis, foi aclamado como Rei de Portugal pelas Cortes, reunidas em Coimbra. Portugal encontrava-se então em guerra civil, desde a morte do Rei D. Fernando, a 22 de Outubro de 1383. A Infanta D. Beatriz de Portugal, o único filho a sobreviver a D. Fernando, tinha casado com o Rei de Castela, D. João I, e tinha sido reconhecida Rainha de Portugal, após a morte do seu pai.
Mas nem todos os lugares aceitaram reconhecer D. Beatriz. Embora os tratados, assinados entre Castela e Portugal, definissem que o filho varão de D. Beatriz seria o futuro Rei de Portugal, não de Castela, existia o perigo da Infanta morrer sem ter filhos. E, nesse caso, a coroa de Portugal passaria para o seu marido, resultando na união dinástica entre Portugal e Castela.
Em várias cidades, entre elas Lisboa, Santarém e Évora, surgiram tumultos quando se tentou aclamar D. Beatriz como Rainha de Portugal. A ameaça de união entre os reinos de Portugal e Castela constituía uma situação intolerável para uma parte da população destas cidades. Em seu lugar, foi aclamado o Infante D. João, filho dado por legítimo do Rei D. Pedro I e de D. Inês de Castro, em que se encontrava então em Castela. E onde foi preso por ordem do Rei de Castela.
Com a morte do Rei D. Fernando, a regência de Portugal ficou a cargo da viúva, a Rainha D. Leonor. Porém, a influência crescente do seu amante, Juan Fernández Andeiro, Conde de Ourém, e a sua aproximação a Castela, desagradaram ao povo, e a alguns nobres. Alguns deles, decididos a matar o Conde de Ourém, foram pedir ajuda ao Grão-Mestre de Avis, D. João, filho ilegítimo do Rei D. Pedro I.
Antes de avançarmos mais na descrição da guerra civil, vamos analisar a situação de Portugal em 1383 e os vários candidatos ao trono.
Portugal em 1383
Em 1345 ocorreu a primeira conjunção de Júpiter a Saturno, sobre um signo de Água. E em 1365 verificou-se a segunda. A mudança do signo onde ocorrem estas conjunções, que pertencem aos grandes ciclos de Júpiter e de Saturno, os Senhores do Tempo, é um forte indicador de grandes alterações a nível mundial. Portugal vai seguir essa dinâmica, com o fim da dinastia Afonsina e o nascimento da dinastia de Avis.
Para analisar o ano de 1383 em Portugal, vamos olhar para o horóscopo do Equinócio da Primavera desse ano:
Portugal no Equinócio da Primavera de 1383
A presença da Lua na Casa X, a do Rei, é um claro indicador de mudança. Como se encontra fraca em Gémeos, esta mudança não foi bem regida. O Rei, que neste horóscopo é representado por um Mercúrio muito debilitado, encontra-se na Casa VI, a da saúde. Na casa VII, a dos inimigos do Reino, encontram-se três planetas, a saber: o Sol, Marte e Júpiter. Com tantos planetas nesta Casa, cada um deles deve estar relacionado com uma personagem. O Sol representa a realeza, pelo que podemos deduzir que se trata do Rei de Castela, tanto mais que a posição do Sol, perturba a acção da Lua, na Casa X. Marte representa um guerreiro e Júpiter um juiz, um homem de leis. Ainda não sabemos quem poderá ser, mas vamos ficar atentos.
Como o Ascendente se encontra sobre um signo duplo, vamos analisar também o horóscopo do Equinócio do Outono de 1383:
Portugal no Equinócio de Outono de 1383
A mudança indicada no anterior horóscopo torna-se mais notória com a Lua a assumir a regência da Casa X, a do Rei. De acordo com a natureza da Lua, o governo do Reino estava nas mãos de uma mulher. Por outro lado, a sua posição na Casa VII, coloca-a no campo dos inimigos do Reino.
É de notar a presença de Mercúrio, forte na Casa I, e de Vénus, fraca e a reger a própria casa. A Casa I representa o povo, o Reino, e os planetas presentes nessa casa, as suas acções e sentimentos. Mercúrio é pragmático, mental, e rege as Casa IX e XII, as do conhecimento e dos inimigos ocultos, respectivamente. Embora de natureza simpática e amorosa, Vénus encontra-se fraca, pelo que a sua acção era excessiva. Por outro lado, a sua posição sobre o signo de Escorpião diz-nos que as suas acções eram emocionalmente reactivas. A regência de Vénus sobre a Casa VIII, a das perdas e angústias, indica que o povo tinha esses sentimentos presentes.D. João I, Rei de Castela
“Este año nasció al Conde Don Enrique de Doña Juana su mujer un fijo que decían Don Juan, é fué Rey de Castilla, é nasció en Támara de Leytera de Aragon dia de San Bartolomé 24. Días de agosto Año del Señor 1358.”
Cronicas y Memorias de Los Reyes de Castilla, Rey Don Pedro, Pedro Lopez de Ayala
Embora não sabendo a hora do seu nascimento, o que impossibilita o levantamento do seu horóscopo natal, podemos analisar as posições planetárias no zodíaco, para o seu dia de nascimento. Não é muita informação mas é a que temos.
D. João tem a Lua forte em Touro, mas demasiado própria de Marte, igualmente fraco em Touro. Esta proximidade perturbava a sua sensibilidade e percepção, tornando-a mais activa, menos sensível. Como a Lua está ligada à segurança emocional, esta não é a mais feliz das combinações. Mercúrio está forte em Virgem, indicando que provavelmente D. João pensava de uma forma racional. Vénus encontra-se forte sobre o signo Caranguejo, em recepção mútua com a Lua, os que facilita a acção de ambos os planetas. O Sol está fraco em Virgem, o que não indica nada de especial. Já falei de Marte e da sua (má) influência sobre a Lua. Júpiter encontra-se forte sobre o signo de Carneiro, o que o faz procurar a acção e espalhar a generosidade. Saturno encontra-se sobre o signo de Leão, o que indica falta de ordem e rigor. Foi uma revista rápida mas, mesmo assim, conseguimos definir alguns dos traços psicológicos de D. João.
Infante D. João, Duque de Valência do Campo
“Dona Ignez de Castro, e dela teve tres filhos, e huma filha, a saber: Dom Affonso, D. Joaõ, D. Diniz, e Dona Beatriz. Dom Affonso moreo menino em vida de seu avô. D. Joaõ foy dotado de boas partes, e muitas terras por ElRey seu pay”
Chronica de Del-Rey D. Pedro I, Fernão Lopes
Infelizmente, não sabemos a data de nascimento do segundo filho de D. Pedro I com D. Inês de Castro. Mas a sua prisão em Castela, fez com que D. João não chega-se a ser um verdadeiro candidato ao trono de Portugal.
D. João, o Grão-Mestre de Avis
“D. Joao, que foy Mestre d’Avis em Portugal, e depois Rey, como adiante ouvireis o qual nasceo em Lisboa a onze dias do mez de Abril às tres horas depois do meyo dia no primeiro anno do seu reynado”
Chronica de Del-Rey D. Pedro I, Fernão Lopes
A partir do relato de Fernão Lopes podemos construir o horóscopo de D. João I de Portugal:
Horóscopo Natal de D. João I, Grão-Mestre de Avis
Com o Ascendente no signo Virgem, D. João transmitia, numa primeira impressão, uma imagem melancólica, reservada e seca. O regente do Ascendente, Mercúrio, encontra-se na Casa IX, a do conhecimento, indicando que D. João era especialmente motivado por assuntos relacionados com a educação, o conhecimento e as longas viagens.
A sua vida pública, representada pela Casa X, é igualmente da responsabilidade de Mercúrio, o que mostra a importância deste planeta na vida de D. João. Mercúrio é o representante da mente e da comunicação e encontra-se moderadamente forte sobre o signo de Touro. No entanto, a presença de Marte, junto à cúspide da Casa X, indica eram acção, a assertividade e a necessidade de conquista, que caracterizavam a vida pública de D. João. De facto, o próprio Almutem, uma das técnicas da Astrologia Natal, indica que o planeta que melhor representa D. João é Marte, indicando que se trata de uma pessoa conquistadora e com características de liderança.
D. João era especialmente simpático nos seus relacionamentos sociais. A presença de Vénus, forte na Casa VII, indica também que o seu amor foi correspondido.
Quando D. Fernando morreu, a Firdaria, uma das técnicas preditivas da Astrologia Natal, de D. João estava a ser regida por Mercúrio e Marte, os dois planetas que controlam a sua vida pública. Uma excelente oportunidade! Na sua Revolução Solar, uma outra técnica preditiva da Astrologia Natal, estes dois planetas estavam a fazer uma conjunção exacta, na Casa V, em Touro. Trata-se de uma posição fraca para Marte, que assim forçava Mercúrio a pensar na acção, na acção e na acção, mas sem um controlo eficaz sobre os seus actos. Estes tendiam a ser excessivos.
Revolução Solar de 1383
Na mesma altura, as Professões, uma terceira técnica preditiva da Astrologia Natal, eram regidas por Júpiter. E, em Dezembro de 1383, o seu Ascendente Profético fez uma Antichia à Lua, o que reforça a sua posição junto dos amigos, Casa XI.
Fim da primeira parte.
Bibliografia:
AYALA, Pedro Lopez de, Cronicas de Los Reyes de Castilla, 1780
AVELAR, Helena e Luís Ribeiro, Astrologia Real
LOPES, Fernão, Chonica DelRey D. Pedro I, 1735
LOPES, Fernão, Chonica DelRey D. Ioam I, de Boa Memoria, 1644
SARAIVA, António José, As Crónicas de Fernão Lopes, Gradiva, 1993