Mapas do Mundo

Sarajevo no Verão de 1914

Projecto: Mapas do Mundo

Técnica: Trabalho de Astrologia Mundana e Natal

Às 10 horas da manhã do dia 28 de Junho de 1914, o Arquiduque Franz Ferdinand da Áustria, herdeiro presuntivo ao trono imperial da Áustria-Hungria, desceu do comboio em Sarajevo, para assistir às manobras militares. Sarajevo era então a capital da província da Bósnia e Herzegovina, anexada ao Império em 1908. Mas a situação era complicada. A Rússia, com interesse na região, apenas tinha permitido a anexação, em troca do apoio da Áustria-Hungria à abertura dos Dardanelos à armada russa. E tanto a França como o Reino Unido, não estavam dispostos a permitir esse acesso.

Na origem desta crise estava o apoio da vizinha Sérvia aos sérvios e croatas da Bósnia. Apoiada pela Rússia, igualmente ortodoxa e eslava, a Sérvia aspirava a recuperar todos os territórios historicamente sérvios, onde se incluía a Bósnia e Herzegovina. Apenas a intervenção da Alemanha tinha evitado a ocupação da Sérvia pela Áustria-Hungria, em 1909. Desde então, a Sérvia esperava pelo próximo ataque imperial e preparava-se.

Áustria-Hungria

O Império Austríaco, criado pela família Habsburgo no século XV, encontrava-se muito enfraquecido no início do século XX. A Hungria tinha-se tornado independente em 1867, e embora continuasse a pertencer ao Império, agora com o nome de Áustria-Hungria, os súbditos alemães, checos, eslovacos, croatas, sérvios, eslovenos, italianos, polacos e ucranianos também tinham as suas reivindicações. Perante a dificuldade crescente em manter os povos imperiais unidos, o Imperador Franz Joseph I considerava que era necessária uma demonstração de força para restaurar o prestígio do Império.

Para dificultar a posição imperial, em 1912, o Império Turco desmoronou-se na Europa. Nas Guerras dos Balcãs que se seguiram, a Áustria-Hungria, militarmente fraca, conseguiu, mas apenas com o apoio da Itália, evitar a ocupação da Albânia pela Sérvia. Mas o resultado final foi a perda total da sua influência nos Balcãs, e o fim do seu estatuto de Grande Potência.

A Sérvia saiu do conflito com o dobro do território. A necessidade de atacar a Sérvia para restaurar a força do Império era um tema que recolhia uma grande aceitação nas conversas em Viena. E, perante a possibilidade da Rússia poder intervir em defesa da Sérvia, era fundamental o apoio da Alemanha. Desde o Verão de 1913, a Aústria-Hungria já tinha pedido por três vezes o suporte da Alemanha para esmagar a Sérvia. A Alemanha tinha recusado cada um deles. Mas surgiria uma nova oportunidade.

Em 1901 verificou-se uma conjunção de Júpiter a Saturno, sobre um signo de terra. Desde 1802 que as conjunções dos Senhores do Tempo, Júpiter e Saturno ocorriam sobre signos de terra, o que indica uma preocupação mundial pelo domínio do território, dos recursos e da produção. Na Europa, este período de conjunções teve início nas guerras napoleónicas, e terminou apenas em 1961.

Para sabermos mais sobre o ano de 1914, podemos começar por analisar, à luz da Astrologia Mundana, o horóscopo do Equinócio da Primavera desse ano, levantado para a capital do Império, Viena:


Mapa Astrológico

Equinócio da Primavera de 1914, em Viena

 

A presença de um signo cardinal, Caranguejo, no ascendente, indica que este horóscopo é válido apenas para a Primavera de 1914. Durante esse período, a presença do Sol e de Vénus, ambos no meio-do-céu, deve ter resultado num reforço do poder do Imperador e numa manifestação ardente de inveja e falta de decoro. A posição da Lua na casa sete indica que houve uma mudança, mal gerida, nas suas alianças e que o Império passou a considerar um outro inimigo. Para analisar o Verão de 1914, temos que olhar agora para o horóscopo do Solstício de Verão:

 

Mapa Astrológico

Solstício de Verão de 1914, em Viena

 

Marte e Júpiter estão angulares na primeira e na sétima casas, respectivamente. Marte encontra-se forte na casa que indica a essência do Império: a sua população. Marte é o significador do combate, da conquista, e representa, pela sua posição, uma forte possibilidade do Império receber uma declaração de guerra. Júpiter encontra-se igualmente forte, e a sua posição, numa casa que representa os seus inimigos confessos, indica que o Império assumiu-se como um adversário justo e generoso.

Uma outra fonte de informação, é o Imperador Franz Joseph I. No trono austríaco desde 1848, era o Imperador que decidia sobre a política externa, as finanças e a defesa da Áustria-Hungria. Se analisarmos o seu mapa natal:

Mapa Astrológico

Horóscopo Natal do Imperador Franz Joseph I

 

Verificamos que os eixos se encontram sobre signos cardinais, que o impulsionavam para a acção. O signo Carneiro caracteriza as suas relações, mas o seu regente, Marte, apesar de estar forte, encontra-se na Casa VI, o que lhe impunha sérias limitações na acção e lhe atribuía perdas de sangue e acidentes.

A vida pública era a fonte de motivação para o Imperador, com o regente do ascendente, Vénus, angular e forte no meio-do-céu. A sua imagem pública era simpática, embora devido à proximidade da estrela fixa Procyon a Vénus, também fosse considerada petulante e orgulhosa. Mas a sua grande dificuldade era a falta de sensibilidade. Pela infeliz posição da Lua, cercada pelo Sol, que a dominava, e pelo Saturno, que lhe retirava qualquer átomo de emoção, esta podia ser considerada o seu calcanhar de Aquiles.

Como o Imperador fazia anos a 18 de Agosto, temos que analisar o seu Retorno Solar de 1913, levantado no dia em que fez 83 anos, para verificamos como decorreu o início do Verão de 1914:

Mapa Astrológico

Retorno Solar de 1913 do Imperador Franz Joseph I

 

O Sol e Mercúrio encontram-se angulares no meio-do-céu. O Sol indica honra e glória, e Mercúrio envolve a mente e a comunicação. Pela sua posição no horóscopo natal, o Sol está associado aos seus apoios no governo, e Mercúrio à comunicação de bastidores, e ao conhecimento. Pela sua posição na Revolução Solar, tanto o sol com Mercúrio estão relacionados com a vida pública do Imperador, mas, no caso particular de Mercúrio, também com a morte e as perdas. Mais preocupante é a posição dos dois planetas maléficos, Marte e Saturno, em conjunção, na casa oito, a da morte. Ambos os planetas se encontram fortes, o que diminui os danos, mas Marte está relacionado com a saúde, os recursos e as relações do Imperador enquanto Saturno rege os apoios no governo, a família e os filhos. Se voltarmos ao mapa natal do Imperador, pelas casas derivadas, vemos que Marte é o regente do ascendente do seu sobrinho, o Arquiduque Franz Ferdinand.

Arquiduque Franz Ferdinand

A morte do Arquiduque Rudolf, filho do Imperador Franz Joseph I, em 1889, e a renúncia ao trono, poucos dias depois, do seu pai, o Arquiduque Karl Ludwig, fizeram do Arquiduque Franz Ferdinand o herdeiro presuntivo do Imperador Franz Joseph I.

Mapa Astrológico

Horóscopo Natal do Arquiduque Franz Ferdinand

 

No seu horóscopo natal, acima apresentado, o Sol e Mercúrio encontram-se angulares, na primeira casa. Ambos os planetas estão fortes e indicam que o Arquiduque tinha uma imagem irradiante e comunicativa. A presença de Saturno, forte e angular junto à cúspide do meio-do-céu, indica que, na sua vida pública, o Arquiduque era bastante conservador.

O Sol é também o co-regente da casa oito, a da angústia e da morte. Pela sua presença junto ao ascendente, é um forte indicador de que o Arquiduque foi colocado num situação de angústia e morte. Mercúrio, pelo seu lado, é o regente das casas seis e sete, responsáveis, respectivamente, pela saúde e relações do Arquiduque.

Quando o Arquiduque fez 50 anos, a 18 de Dezembro de 1913, o horóscopo do seu Retorno Solar era o seguinte:

Mapa Astrológico

Retorno Solar de 1913 do Arquiduque Franz Ferdinand

 

O Sol e Vénus encontram-se angulares no meio-do-céu, e a Lua na casa sete. Vénus é o regente da vida pública do Arquiduque e, neste Retorno Solar é também o co-regente da casa oito, a da morte. A Lua e o Sol são, respectivamente, o regente e o co-regente da casa oito no horóscopo natal do Arquiduque. A presença destes planetas, em casas angulares, é um forte aviso de que algo de grave vai acontecer. Preocupante é também a presença de Marte, cujo à cúspide da casa seis, a da saúde. É um sinal claro de perigo, de acidente e de derramamento de sangue.

Através de uma outra técnica preditiva, a Firdaria, sabemos que Vénus continuava a sua regência do período, e que, desde Fevereiro de 1914, Mercúrio tinha assumido a regência do sub-período. Mercúrio representa a imagem do Arquiduque e é o regente da sua saúde e das suas relações, no seu horóscopo natal. Como no seu Retorno Solar, Mercúrio se encontra praticamente angular e é o regente da casa oito, a sua acção levanta outro sério aviso. A influência de Vénus, através da regência do período da Fridaria, é mais ténue mas ela é a co-regente da casa oito do Retorno Solar.

Segundo uma terceira técnica preditiva, as Professões, o ano estava a ser regido por Júpiter, mas o ascendente profético encontrava-se sobre o Termo de Vénus. Novamente a co-regência sobre a casa oito.

Temos uma acumulação de sinais relacionados com a casa oito, e Marte junto à cúspide da casa seis, a indicar que algo de grave iria acontecer ao Arquiduque Franz Ferdinand.

A 28 de Junho de 1914, em Sarajevo, a capital da província imperial da Bósnia e Herzegovina, Gavrilo Princip, um sérvio bósnio de 19 anos, matou o Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro ao trono da Áustria-Hungria, e a sua esposa, a Duquesa de Hohenberg. Um mês depois começou a Primeira Guerra Mundial.

 

Bibliografia:

 

AVELAR, Helena, Maria Manuela Xavier e Luís Ribeiro, “O Regicídio e a República 1908-1926 à Luz da Astrologia”, Vogais e Companhia, 2010
BROOK-SHEPHERD, Gordon, “Archduke of Sarajevo”, Little, Brown and Company, 1984
CARTER, Miranda, “The Three Emperors”, Penguin Books, 2009
STEVENSON, David, “1914 1918”, Penguin Books, 2004
TAYLOR, AJP, “The Habsburg Monarchy 1809 – 1918”, Penguin Books, 1948