Primeira Viagem de Cristóvão Colombo - Parte I
Projecto: Mapas do Mundo
Técnica: Trabalho de Astrologia Horária e Mundana
“veo el tu deseo magnífico y grande á navegar en las partes de Levante por las de Poniente, como por la carta que yo te invio se amuestra, la cual se amostrará mejor en forma de esfera redonda, pláceme mucho sea bien entendida; y que es el dicho viaje no solamente posible, mas que es verdadero y cierto é de honra é ganancia inestimable y de grandísima fama entre todos los cristianos.”
Carta de Paolo Toscanelli a Cristóvão Colombo, 1474
A viagem de Cristóvão Colombo, que levou à descoberta oficial do continente americano pela Europa, foi uma aventura extraordinária. Num período de expansão dos reinos da península ibérica, ele conseguiu, com audácia e persistência, realizar o seu sonho e embarcar ao comando de uma frota rumo às Índias, por ocidente.
O objectivo deste trabalho é saber em que condições essa viagem teve início. Para isso, vamos recuar no tempo, e procurar compreender o contexto histórico que nos permite fazer a análise do horóscopo da primeira viagem de Cristóvão Colombo.
O Sonho
Cristóvão Colombo nasceu por volta do ano de 1450, provavelmente em Génova. A dúvida relativamente ao seu local de nascimento, alimentada pelos mais variados estudos efectuados durante as últimas décadas, não é importante para o nosso trabalho. Sem sabermos o dia do seu nascimento, a informação acerca do local deixa de ser útil para a astrologia.
Na mesma altura, em 1453, os Turcos conquistaram finalmente Constantinopla, a capital do império bizantino. Este acontecimento, aliado ao avanço das conquistas turcas através dos Balcãs, tornou ainda mais difícil para os cristãos o comércio no mediterrâneo oriental. Entre as cidades mais afectadas por esta mudança geopolítica, encontravam-se as senhoras do comércio mediterrâneo, Veneza e Génova. A principal fonte de rendimentos do comércio mediterrânico, que tinha permitido o grande desenvolvimento das cidades italianas, e o surgimento do Renascimento, encontrava-se a oriente, para lá dos territórios sob domínio islâmico, na Índia, e mais além ainda, na China. Sem o acesso aos produtos exóticos provenientes dessas paragens, indispensáveis para abastecer o mercado de luxo dos cristãos, a vantagem comercial destas cidades ficou em perigo.
A crescente ameaça turca aos reinos cristãos, fez com que, por um lado, continuasse bem vivo o espírito de cruzada, e por outro, procurassem rotas comerciais alternativas para os produtos do oriente, que contornassem os reinos islâmicos. Com as hipóteses comerciais a diminuir na Europa oriental, os comerciantes cristãos começaram a dar mais atenção ao ocidente. Tanto mais que, ao contrário da situação desesperada a oriente, os reinos da península ibérica estavam em expansão. Castela tinha-se unido a Aragão, em 1469, e procurava conquistar o último reino mouro da península ibérica, Granada. Portugal, livre do contacto directo com o islão, tinha passado à ofensiva e possuía já um conjunto de fortalezas no norte de África, no que vivia a designar-se por “Algarve de Além-Mar”.
A expansão dos reinos ibéricos criou novas oportunidades comerciais e de carreira, a ocidente. A experiência dos marinheiros italianos permitiu-lhes entrar facilmente ao serviço de Portugal e Castela. Eram particularmente apreciados os cartógrafos, que produziam as cartas náuticas necessárias à navegação nos novos mares e à abertura dos novos mercados.
Por volta de 1476, Colombo, com o seu irmão mais novo, Bartolomeu, chegou a Lisboa à procura de trabalho. Bartolomeu, cartógrafo de profissão, com o apoio da numerosa e rica comunidade de emigrantes genoveses, rapidamente conseguiu montar o seu negócio. O desenho e a cópia de cartas náuticas, numa cidade que é então considerada uma das mais avançadas na arte de navegação marítima, permitiram certamente aos irmãos Colombo ter acesso às mais recentes descobertas dos portugueses.
Nos anos seguintes, Colombo fez várias viagens através do Mar Oceânico, nome porque era então designado, porque não se conhecia outro, o Oceano Atlântico. E, em 1479, Colombo casou com D. Felipa Perestrello e Moniz, a filha do já falecido primeiro donatário da ilha de Porto Santo, Bartolomeu Perestrello. A sogra, D. Isabel Moniz, que pertencia a uma das mais antigas famílias nobres portuguesas, abriu ao genro as portas de um círculo social mais elevado, com ligações à casa real portuguesa. E vendo o interesse de Colombo pela geografia, entregou-lhe os registos e as cartas náuticas do marido. A posse da informação privada, de um dos capitães do Infante D. Henrique, deve ter sido considerada por Colombo como um tesouro sem preço.
O sonho de Colombo deve ter nascido por essa altura: Se a Terra é redonda, como comprova a minha experiência de navegação, e se o Mar Oceânico vai da Europa à Índia, como escreveu o Cardeal Pierre d'Ailly, em 1410, será possível chegar à Índia navegando para ocidente?
Eram conhecidas as histórias que os marinheiros contavam sobre as embarcações que tinham perdido o rumo e tinham visto terra a ocidente. Os próprios portugueses tinham enviado, no tempo do infante D. Henrique, expedições à procura de terra a ocidente, que tinham resultado na descoberta do arquipélago dos Açores. Estas histórias chegavam igualmente aos ouvidos dos cartógrafos, que colocavam nas suas cartas náuticas ilhas misteriosas a ocidente, como as de São Brandão e de Hy Brasil. Um exemplo desta prática foi o mapa de 1424, do cartógrafo veneziano Zuano Pizzigano, que inclui um misterioso grupo de ilhas denominado Antillia, na região das actuais Caraíbas.
Os autores clássicos, que gozavam então de grande prestígio, confirmavam a possibilidade de chegar ao oriente navegando para ocidente. Aristóteles, que era muito respeitado por ter sido o tutor de Alexandre o Grande, escreveu que era possível navegar da Espanha à Índia em poucos dias. Strabo, um geógrafo do tempo do imperador Augustus, e considerado actualmente o pai da geografia, escreveu que as tentativas de circum-navegação da Terra não tinham sido impedidas de continuar devido à oposição de um continente, mas sim por falta de vontade e de provisões. Cláudio Ptolomeu, que viveu do século II d.C., descreveu as Ilhas das Especiarias, na Ásia, e afirmou que o Oceano era navegável.
A Geografia
Que a Terra era redonda, já Aristóteles o tinha afirmado no século IV a.C., embora não fosse universalmente aceite. No entanto, para o comum dos marinheiros essa afirmação fazia todo o sentido: a visão de um navio a afastar no horizonte, indicava que a superfície da Terra era curva. A dificuldade começava quando se procurava calcular a posição de um navio no mar. Para a navegação no hemisfério norte, os europeus já calculavam correctamente a latitude, a partir da altura no horizonte da estrela polar. E, para o hemisfério sul, os portugueses tinham encontrado um método semelhante, que a partir da altura do Sol, lhes permitia encontrar a latitude do lugar.
Mas a longitude continuava a escapar, com o cálculo da dimensão da Terra a chegar a vários valores. Um grego do século II a.C., Erastóstenes, tinha conseguido encontrar um valor para a circunferência da Terra, muito próximo da realidade. Mas um dos autores mais lidos no século XV, Cláudio Ptolomeu, optou pelos cálculos de um outro autor grego, Posidonius, no que resultou numa Terra trinta por cento mais pequena.
Desde Aristóteles, que era utilizado o método de Hiparco, considerado actualmente o pai da astronomia científica, que dividia o equador em 360 partes ou graus. Segundo Aristóteles, nos 360 graus de longitude, as terras ocupam metade, ou seja 180 graus. Cláudio Ptolomeu, pelo seu lado, ao estimar erradamente o tamanho da Europa, da Ásia e de África, acabou por aumentar em cerca de 50% o mundo conhecido. E diminuir consideravelmente o mundo desconhecido, por descobrir.
Em 1474, um dos maiores físicos e matemáticos do seu tempo, o florentino Paolo Toscanelli dal Pozzo, respondeu a uma carta ao seu amigo Fernão Martins, o cónego da catedral de Lisboa, sobre a viabilidade das rotas alternativas à da Guiné, para alcançar a Ásia. Ao confidente de D. Afonso V, Toscanelli afirmou que a Ásia ficava a oeste, em frente a Portugal, e incluiu um mapa que mostrava a longitude e latitude. Na corte de Lisboa, a carta e o mapa de Toscanelli foram considerados segredos de estado, mas em 1480, Colombo já tinha uma cópia de ambos. E, no ano seguinte, Colombo escreveu a Toscanelli a pedir mais informação.
Nas cartas que enviou a Colombo, Toscanelli indicou que a distância entre as ilhas Canárias e Quinsay, na China, é de apenas cinco mil milhas. Ou seja, os seus cálculos de apresentam um erro ainda maior que o de Cláudio Ptolomeu, colocando a Ásia ainda mais próximo da Europa. Mas Colombo não ficou convencido e pensou que a distância tinha que ser menor: se a Terra tem 360 graus de longitude, quantos graus tem o mundo conhecido? E quantas milhas tem um grau?
Colombo começou a fazer os seus cálculos e tanto calculou, que acabou por obter o resultado que pretendia. Segundo ele, a distância entre as ilhas Canárias e Quinsay não era de cinco mil milhas, como afirma Toscanelli, mas apenas três mil e quinhentas milhas. E se uma caravela podia navegar cem milhas por dia, com vento a favor, podia chegar à China em cinco semanas. Era uma viagem perfeitamente possível.
O problema é que, quando Colombo afirmava que a circunferência da Terra era apenas dezanove mil milhas, esta tem na realidade vinte e cinco mil milhas. E estimava também que a distância das Canárias ao Japão era de apenas duas mil e trezentas milhas. Pensa-se que Colombo terá chegado a estes valores, bastantes convenientes para si, ao aceitar os cálculos do Cardeal Pierre d'Ailly, de um menor grau de longitude, e ao considerar que estavam expressos em milhas italianas os cálculos do astrónomo árabe Al-Farghani. Na realidade, estes últimos estavam expressos em milhas náuticas, o que resultou num típico erro de conversão.
Fim da Primeira Parte.
Bibliografia:
ALBUQUERQUE, Luís, Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, Publicações Europa-América, 1983
COLUMBUS, Chistopher, The Four Voyages, Penguin Classics, 1969
DUGARD, Martin, A Última Viagem de Colombo, Casa das Letras, 2005
IRWIN, Robert, For Lust of Knowing, Penguin Books, 2007
RESTON, James Jr.,Os Cães de Deus, Bertrand Editora, Lisboa, 2008