Mapas do Mundo

As Grandes Conjunções - Parte I

Projecto: Mapas do Mundo

Técnica: Trabalho de Astrologia Mundana

A percepção do movimento diário do Sol, e da Lua durante a noite, deve ter dado ao homem pré-histórico o primeiro nível de conhecimento astronómico, bastante útil para as suas deslocações pela Terra. Olhando para o céu a partir da entrada da caverna, durante as longas noites pré-históricas, deve ter também descoberto que, entre as inúmeras estrelas imóveis, algumas mudavam de posição, dia após dia. Este conhecimento associado ao ciclo das estações permitiu-lhe tirar melhor partido da agricultura. A posterior sedentarização dos povos, e o início das civilizações agrícolas, com mais recursos para explorar esta área do conhecimento, possibilitou a criação de arquivos para o registo do movimento das estrelas no céu. Foi da análise desses dados que nasceu a Astrologia. A informação acumulada ao longo de séculos permitiu aos povos da antiguidade relacionar o movimento dos astros no céu com os acontecimentos na vida dos povos.

Os Senhores do Tempo

De entre os astros observáveis da Terra a olho nu, Saturno e Júpiter são os que têm as maiores orbitas em torno do Sol. Por levarem 12 e 30 anos, respectivamente, a ocupar a mesma posição na esfera celeste, estes planetas são conhecidos, desde a antiguidade, como “Cronocratores”, ou seja, os Marcadores do Tempo.

A unidade mais pequena de tempo, medida entre as conjunções de Júpiter a Saturno, ocorre periodicamente de 20 em 20 anos. Durante aproximadamente 200 anos, essas conjunções verificam-se sobre os signos de mesmo elemento, seja ele fogo, terra, ar ou água, e são classificadas como mínimas [minims ou specialis, em latim]. A primeira conjunção que ocorre sobre um signo de um novo elemento é classificada como média [media ou trigonalis – mudança de trigons]. Com as conjunções a percorrerem os quatro elementos, o que decorre num período de cerca de 800 anos, voltamos a ter as conjunções sobre os signos do elemento fogo, isto é, Carneiro, Leão ou Sagitário. A primeira dessas conjunções, se ocorrer sobre Leão ou Sagitário, chama-se Grande [Magna] Conjunção, e se ocorrer sobre Carneiro, chama-se Conjunção Máxima [Maxima].

Para além das situações acima indicadas, existe ainda um outro comportamento interessante nas conjunções entre Júpiter e Saturno. Num curto período de tempo, normalmente de um ano, podem verificar-se três conjunções de Júpiter a Saturno. Este acontecimento tem o nome de Conjunção Tripla.

Do ponto de vista astrológico, as Grandes Conjunções estão associadas a mudanças fundamentais na história da humanidade. O grande astrónomo Tycho Brach escreveu que as Grandes Conjunções ímpares são auspiciosas, são “sinais da bondade de Deus para com a humanidade." (no seu Progymnasin, Livro 1). E tanto Johannes Kepler como Johann Heinrich Alsted escreveram que a Conjunção Mínima de 1635, que ocorreu sobre Leão, devia "queimar e destruir completamente o lixo e as malfeitorias de Roma".

Para melhor compreendermos o seu significado, criei uma lista com as conjunções entre Júpiter e Saturno, de 600 A.C. a 2.239 A.D. Esta lista vai permitir-nos identificar as conjunções grandes, máximas e triplas, e verificar o período da história em que puderam ser observadas.

As Grandes Conjunções

Relativamente às Grandes Conjunções, em que correspondem às primeiras conjunções sobre o elemento Fogo, podemos identificar quatro na nossa lista.

A primeira Grande Conjunção da lista ocorreu a 29 de Junho de 26 A.C., sobre Leão.

Mapa Astrológico

 

Leão indica a estabilização do Verão, quando o Sol irradia a sua luz sobre a Terra com a máxima força, e representa também a realeza. A conjunção ocorreu sobre a Casa X, o que vem reforçar a importância do governo, do rei. A Casa X tem a sua cúspide sobre o signo Caranguejo, cujo regente é a Lua. Esta encontra-se forte na própria na Casa X, no signo de que é regente, Caranguejo. A Lua forte representa uma mudança significativa e bem controlada. O Sol, significador universal do rei, encontra-se na Casa IX, a do conhecimento e da religião, também em Caranguejo. Esta casa corresponde à Casa XII derivada na Casa X da conjunção, e está associada a limitações, a acções de bastidores e a inimigos ocultos. Sendo Leão um signo fixo, os efeitos indicados por esta conjunção foram duradouros.

 

Interessante. No início do ano anterior, em Janeiro de 27 A.C., o Senado Romano tinha atribuído a Octavianus os títulos de Augustus e de Princeps. Esta data é considerada como o fim da República Romana, e o início do Império Romano.

 

A Segunda Grande Conjunção ocorreu a 23 de Julho de 769, sobre Leão.

Mapa Astrológico

 

Mais uma conjunção que está relacionada com a realeza. Esta ocorreu sobre a Casa III, a da comunicação e dos familiares. A comunicação deve ter ganho especial importância para o rei e deve ter sido fundamental junto dos seus familiares. A Casa III tem a cúspide sobre o signo Caranguejo, o que faz com que o seu regente seja a Lua. Esta encontra-se fraca na Casa IX, a do conhecimento, da religião e das longas viagens, no signo de Capricórnio. A conjunção indica que estes temas receberam especial atenção, embora, devido à fraqueza da Lua, não tenham sido tão beneficiados como se pretendia. O significador universal do rei, o Sol, encontra-se forte na Casa IV, a da família, em Leão. Que é também a Casa II, derivada na Casa X da conjunção. A Casa II está associada aos recursos financeiros, à economia, pelo que este tema, tendo em conta a força do Sol, deve ter aumentado significativamente. Também na Casa III encontramos Mercúrio, o significador universal da comunicação e do comércio, a reforçar a importância destes temas. Mais uma vez, e porque estamos a falar de Leão, um signo fixo, os efeitos indicados por esta conjunção foram duradouros.

 

Novamente interessante. O califa Al-Mansur mandou construir de raiz a sua nova capital em Bagdade, entre 762 e 765. Esta cidade tornou-se na mais próspera cidade do mundo conhecido, tendo atingido um elevado nível de desenvolvimento económico e intelectual. O califa Al-Mansur fundou também uma dinastia que durou até 1517.

Pela mesma altura, em 768, Carlos Magno herdou o trono da França, juntamente com o seu irmão Carloman II. Mas como este viria a morrer em 771, Carlos acabou por se tornar no único senhor do reino. No dia de Natal de 800 foi coroado pelo Papa Leão III como o primeiro Imperador do Sacro Império Romano, uma recriação do antigo Império Romano. O seu carisma eclipsou os dois reis excepcionais que o precederam, Carlos Martel e Pepino III, que ficam para a história apenas como os seus antecessores. Com Carlos Magno teve início a dinastia Carolíngia, que iria dominar a França nos próximos 200 anos.

 

A Terceira Grande Conjunção ocorreu a 18 de Dezembro de 1603, sobre Sagitário.

Mapa Astrológico

 

Sagitário indica o fim do Outono, a mudança para o Inverno, e o seu regente, Júpiter, representa a justiça e a religião. Como a conjunção ocorreu sobre a Casa XII, associada aos assuntos tratados nos bastidores, às limitações e aos inimigos desconhecidos, ganham especial importância. Felizmente, como Júpiter se encontra forte, em Sagitário, a tendência é para impor a sua natureza justa e pacífica. A Casa XII tem a cúspide sobre o signo Sagitário, o que vem reforçar a importância de Júpiter. A regente da Casa X, a do Rei, é Vénus que se encontra fraca na Casa I, indicando que a posição é ocupada ou controlada por uma mulher, com o apoio da população mas envolta em inveja e traição. A presença do Sol forte também na Casa I indica que a população vai viver dias de glória. Infelizmente, nem tudo são rosas, porque Capricórnio é um signo interceptado na Casa I. O seu significador, Saturno, também representa a população e introduz uma componente de seriedade, de austeridade. Como a Lua também se encontra angular, mas na Casa VII, a dos inimigos, esta conjunção indica uma mudança, que o reino vai passar a ter outros inimigos. Marte, o significador da família e dos aliados, encontra-se fraco na Casa IX, a do conhecimento e da religião. Os combates que se vão travar sobre este tema vão ser demasiado violentos e fora de controlo. Tratando-se Sagitário de um signo duplo, passadas algumas décadas voltará a surgir a discórdia e a guerra.

 

Em 1598 é publicado o Édito de Nantes que confere aos protestantes calvinistas franceses, conhecidos como Hugenotes, a liberdade religiosa e os seus direitos civis. Com este acto o Rei Henrique IV de França, que tinha convertido ao catolicismo em 1594, terminou com as guerras religiosas que vinham assolando a França deste que o massacre dos Hugenotes em Vassy, em 1562. A França encontra-se em mau estado mas vai tornar-se, durante o século XVI, na maior potência europeia. Vai destronar a Espanha, que começa nesta altura a sua decadência, com a morte do Rei Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, em 1598. Mas com a morte do Rei francês, assassinado em 1610, a Rainha Maria de Médicis assumiu a regência, de 1610 a 1617, devido à menor idade do filho Luís XIII. Com ela vai fracassar a última tentativa de conduzir a França com uma política católica. Em breve, em 1618, terá início a Guerra dos Trinta Anos, que vai provocar tanta mortandade entre os católicos e os protestantes que a população da Alemanha, o principal teatro das operações militares, vai perder entre 20% e 50% da população, dependendo da região.

Do outro lado do canal, em 1603, morre a Rainha Isabel I de Inglaterra, e sobe ao trono o Rei Jaime IV da Escócia. Chega ao fim a dinastia Tudor e tem início a dinastia Stuart, com a união das coroas da Inglaterra e da Escócia.

Do outro lado do mundo, também em 1603, tem início no Japão o período Edo. Nesse ano, Tokugawa Ieyasu foi nomeado Shogun pelo Imperador e estabeleceu o seu governo em Edo (Tóquio). Com um poder e uma fortuna quase absolutos, o shogunato Tokugawa governou o Japão com paz e estabilidade durante os 250 anos seguintes. Com a nomeação de Tokugawa termina o feudalismo no Japão, que vinha desde 1185, e tem início a dinastia de shoguns Tokugawa.

Na mesma altura estabelecem-se as primeiras colónias francesas e inglesas. Em 1603 o Rei Henrique IV de França funda a Companhia do Canáda e da Acádia. Samuel de Champlain realiza a sua primeira viagem para estabelecer uma colónia na América. Em 1608 funda a cidade do Québec.

Em 1607 é fundada por John Smith a primeira colónia inglesa no Novo Mundo: Jamestown, na Virginia. A colónia não morre de fome durante o seu primeiro inverno, devido à intervenção da filha do chefe Maiden, Pocaontas. No mesmo ano, os holandeses fundam a Companha das Índias Ocidentais.

Voltando a 1603, regressa à Inglaterra a primeira expedição da Companhia das Índias Orientais, com um carregamento precioso de pimenta. No ano anterior, os holandeses tinham fundado a Companhia Holandesa das Índias Orientais, julgo VOC

 

A Quarta Grande Conjunção vai ocorrer a 2 de Dezembro de 2238 sobre Sagitário. Está demasiado afastada no tempo para lhe dedicarmos atenção.

Durante o período coberto pela lista não foi possível observar nenhuma conjunção máxima, ou seja, em que a transição para o elemento fogo tenha ocorrido em Carneiro.

As Conjunções Triplas ficam para a segunda parte deste trabalho.

Fim da Primeira Parte.

 

Bibliografia:

DIO, Cassius, The Roman History: The Reign of Augustus, Penguin Books, 1987
LILLY, William, Astrologia Cristã, Biblioteca Sadalsuud
LILLY, William, O Profético Merlin, Biblioteca Sadalsuud
RAMESEY, William, Astrologia Munda, Steven Birchfield, 2006
WICKHAM, Chris, The Inheritance of Rome, Penguin Books, 2010