Mapas do Mundo

A Babilónia em 323 A.C.

Projecto: Mapas do Mundo

Técnica: Trabalho de Astrologia Mundana

Longe ia o tempo em que as cidades gregas tinham enfrentado, com êxito, o Império Persa. Envolvida numa guerra interna, que tinha varrido todo o mundo grego de 431 a 404, e que ficou conhecida como a Guerra do Peloponeso, a Grécia encontra-se esgotada. A Pérsia, derrotada no campo de batalha, estava naturalmente interessada em controlar a Grécia, e tinha alimentado com o seu ouro a luta entre as Ligas Poleponésia e de Delos, lideradas respectivamente por Esparta e por Atenas. O resultado foi uma luta selvagem, que quebrou todas as regras tradicionais do combate grego, e que esgotou de forma irreparável a força das suas cidades. Com a derrota de Atenas, a democracia entrou em declínio, e a oligarquia, o modelo político de Esparta, foi adoptada por várias cidades-estado.

Em 401, pouco depois de terminada a Guerra do Poleponeso, a luta pelo trono persa fez com que dez mil mercenários gregos fossem recrutados pelo sátrapa Ciro, para destronar o seu irmão Artaxerxes. Os gregos ganharam a batalha de Cunaxa, em pleno coração da Pérsia, mas perderam o seu patrão, morto durante o combate. A mil quilómetros de casa, e cercados por tropas persas, conseguiram ultrapassaram todos os desafios e regressar à Grécia. Esta epopeia ficou conhecida pela Retirada dos Dez Mil e viria a ser de importância capital para a percepção que os gregos tinham do Império PersaEm 401, pouco depois de terminada a Guerra do Poleponeso, a luta pelo trono persa fez com que dez mil mercenários gregos fossem recrutados pelo sátrapa Ciro, para destronar o seu irmão Artaxerxes. Os gregos ganharam a batalha de Cunaxa, em pleno coração da Pérsia, mas perderam o seu patrão, morto durante o combate. A mil quilómetros de casa, e cercados por tropas persas, conseguiram ultrapassaram todos os desafios e regressar à Grécia. Esta epopeia ficou conhecida pela Retirada dos Dez Mil e viria a ser de importância capital para a percepção que os gregos tinham do Império Persa.

A riqueza económica e cultural da Grécia tinha influenciado os reinos bárbaros a norte, nomeadamente a Macedónia. O Rei Filipe II da Macedónia viveu, durante a sua juventude, em Tebas, o que o marcou culturalmente. A viver num território bárbaro, aos olhos dos gregos, Filipe procurou introduzir a cultura grega na corte macedónica. O seu filho Alexandre, juntamente com um grupo de jovens nobres macedónicos, foi educado por um dos filósofos gregos mais influentes do seu tempo, Aristóteles.

Alexandre

Alexandre nasceu ao sexto dia do mês de Hekatombaion, a que os macedónicos chamam Lous, no mesmo dia em que ardeu o templo de Diana em Eféso”.

Plutarco, A Era de Alexandre.

Apesar do registo de Plutarco, não temos a certeza sobre a data de nascimento de Alexandre. De acordo com o calendário juliano, esta data corresponde ao dia 20 de Julho de 356 A.C., mas sabemos que foi manipulada para coincidir com outros acontecimentos importantes, e manifestar desse modo a intervenção divina no seu nascimento.

Se analisarmos essa época à luz da Astrologia Mundana, vemos que alguns anos antes, em 364 A.C., Júpiter tinha feito uma Conjunção Mínima a Saturno, sobre o signo Capricórnio:

Mapa Astrológico

 

Essa foi a última conjunção sobre um signo de terra, numa fase de transição para os signos do elemento ar. Com ela terminava uma era de construção, e começava uma outra onde a comunicação e as trocas de ideias e de bens iriam redesenhar o mundo conhecido. Júpiter tinha encontrado Saturno em Capricórnio, na Casa VI, a da saúde e do trabalho rotineiro. Nesta situação, em que Saturno se encontrava forte e Júpiter fraco, o pragmatismo e a capacidade de definir e atingir objectivos foram a principal mensagem transmitida por esta conjunção mínima.

Continuando, vemos que a conjunção seguinte ocorreu em 344 A.C. sobre o signo Balança:

Mapa Astrológico

 

Com esta conjunção começava definitivamente a era dos signos do elemento ar. Alexandre tinha cerca de 12 anos quando esta conjunção se verificou, estava prestes a entrar numa idade em que são definidos os ideais e os heróis para a vida inteira. Júpiter encontrou Saturno em Balança, na Casa III, a da comunicação. Tanto Júpiter como Saturno encontram-se fortes o que vai permitir que ambos dêem o melhor de si para um objectivo comum.

Não vou escrever sobre a vida de Alexandre, nem sobre a sua grande aventura, a conquista do Império Persa dos Aqueménidas. Isso pode ficar para outro trabalho. Vou passar directamente para o fim da sua vida, porque se existem dúvidas relativamente ao seu nascimento, o mesmo não acontece com a sua morte.

Alexandre morreu na 14ª Olimpíada, no arcontado de Hegesias em Atenas. Ele viveu, segundo Aristobulus, trinta e dois anos e oito meses, e reinou doze anos e 8 meses.”

Arrian, As Campanhas de Alexandre

[Décimo quarto ano de Alexandre, Segundo Mês]

O Vigésimo nono: O rei morreu. Nuvens [no céu]

Abraham Sachs e Hermann Hunger, Os Diários Astronómicos.

A sua morte ocorreu no fim da tarde do dia 11 de Junho de 323 A.C., na cidade da Babilónia. As correcções do calendário antigo continuam a levantar a dúvida sobre o dia de nascimento, mas não sobre o ano. A obra de Arrian, que se baseia nos registos dos companheiros de Alexandre, e os registos babilónicos do templo de Bel oferecem-nos essa garantia.

Mas voltemos um pouco atrás no tempo. Na primavera de 232, quando Alexandre atravessava o rio Tigre em direcção à Babilónia, um grupo de sacerdotes daquela cidade tinha ido ao seu encontro para o persuadir a não entrar na cidade. Segundo eles, o deus Bel tinha-os avisado que a sua entrada na cidade ser-lhe-ia fatal. Aconselharam-no com as seguintes palavras “Meu Senhor, não olhe para oeste, não marche para ocidente com o seu exército; de meia volta e vá para oriente”. Mas o terreno não permitia manobras e Alexandre estava desconfiado que se tratava de uma artimanha dos sacerdotes para impedir a sua entrada na cidade, devido à reconstrução do templo de Bel. Além disso, tinha assuntos importantes a tratar na cidade: os rituais fúnebres do seu companheiro muito amado Heféstion, a preparação da viagem à Arábia e a construção do novo porto da cidade. Alexandre continuou a sua marcha, atravessou o rio Eufrates, e entrou na cidade.

Que aviso foi esse que os sacerdotes receberam? Terá sido uma invenção dos sacerdotes? Será que, por pura coincidência, Alexandre veio a morrer pouco depois? Uma coisa é certa. Os sacerdotes da Babilónia eram astrólogos.

Que técnicas astrológicas tinham ao seu dispor para chegar a esta previsão? Devem ter tido acesso aos dados de nascimento de Alexandre e ao horóscopo da cidade. Nós não podemos trabalhar com esses dados, mas podemos utilizar algumas das técnicas da Astrologia Mundana para reconstruir o cenário da sua morte. Vamos a isso.

Um ano antes, em 324 A.C. Júpiter tinha encontrado novamente Saturno, desta vez sobre o signo Gémeos:

Mapa Astrológico

 

Júpiter encontrou Saturno no fim da Casa VIII, a da morte. Com Saturno mais forte do que Júpiter, é de prever uma grande desgraça. O regente da Casa VIII, Mercúrio, encontra-se fraco e afligido pelo Sol na Casa VII, a dos inimigos, a indicar que o Rei se encontra a combater os seus inimigos. A proximidade de Mercúrio ao Sol, que resulta numa conjunção entre os dois planetas, é um sinal de perigo para a pessoa do Rei.

A presença da Lua na Casa IV, a do território mas também da oposição, indica que existe uma mulher na Macedónia que faz oposição ao Rei. Nesta posição apenas vejo uma pessoa capaz disso: A mãe de Alexandre, a Rainha Olímpia. A Lua rege a Casa IX, a Casa XII derivada do Rei, o que indica que a Rainha Olímpia exercia a sua influência fora dos olhares reais.

A presença de Marte e Vénus, conjuntos na Casa VI, a da saúde, pode indicar uma doença venérea. Mas também pode indicar, considerando que a Casa VI é a Casa IX derivada do Rei, que o Rei ia ter uma relação sexual com uma estrangeira. Qual a importância desta configuração? Quando Alexandre morreu, a sua Rainha, a princesa bactriana Roxane, encontra-se grávida.

Já em 323 A.C, com uma outra técnica da Astrologia Mundana, podemos levantar o horóscopo da cidade da Babilónia:

Mapa Astrológico

 

Como este horóscopo tem um signo cardinal, Balança, no Ascendente, este é válido apenas para os três primeiros meses do ano, ou seja, para o período que vai de 25 de Março a 25 de Junho de 323 A.C.

A posição do Sol, o significador do Rei, na Casa VI, a das doenças, é um indicador que aconselha a ter cuidado com a saúde real. O governo é representado pelo signo Caranguejo, na cúspide da Casa X, e pelo seu regente, a Lua. A Lua é a significadora de mudança e encontra-se fraca em Leão, na Casa XI, a dos companheiros do Rei. A promessa indica que a transferência de poder não será feita nas melhores condições.

Se analisarmos o período seguinte, através do horóscopo do Solstício de Verão:

Mapa Astrológico

 

Vemos que, se o horóscopo da Primavera apresentava um aviso, o horóscopo do Verão faz soar todas as trompetas de alarme. Dos sete planetas visíveis do céu, três estão na Casa VI, da saúde, um quarto sofre uma forte influência dessa casa, um quinto está na Casa VIII, a da morte, e o regente da Casa VI, está junto ao Ascendente. Apenas um planeta, Vénus, se encontra fora deste convite ao desastre. Voltaremos a ele mais tarde.

O alarme mais evidente é a presença de Marte, que como regente da Casa X representa o Rei, na Casa VIII, a da morte. Marte encontra-se forte representando a coragem, a confiança e a invencibilidade do Rei. Esta casa é regida por Mercúrio, que se encontra muito fraco na Casa VI, a da saúde. Essa fraqueza de Mercúrio é mais facilmente compreendida quando vemos que se encontra em conjunção com um malfadado Saturno, já de si muito fraco, e que ambos os planetas estão demasiado próximos do Sol, ou seja, combustos. Temos aqui uma receita para uma doença mortal. As dificuldades com a saúde vão criar o ambiente que vai levar à morte do rei.

Outro sinal visível é a presença do regente da Casa VI, a Lua, junto ao Ascendente. A população vai emocionalmente sentir a evolução da saúde do Rei. O Sol, que representa em geral o Rei, encontra-se no fim da Casa V, o que pode indicar o nascimento de um herdeiro, mas a sua proximidade com Saturno, já na Casa VI, vai acabar por afectá-lo.

Voltando a Vénus, vemos que ela está forte, em Touro, na sua Casa IV, a significadora do território e da oposição, e rege também a Casa IX, a do conhecimento e da religião. Vénus representa também uma mulher, que na Casa IV, em oposição à do Rei, representa a Rainha. Com a morte do Rei, esta assume especial importância. Penso que estamos a falar da mãe de Alexandre, a Rainha Olímpia.

Faltamos apenas analisar Júpiter. Este encontra-se forte e está associado à Casa II, a da economia, e à Casa XI, e a dos apoiantes do Rei. Estes vão acompanhar a doença do Rei e vão ser os principais beneficiários da sua morte..

Mas este não foi o primeiro aviso da morte de Alexandre. Alguns anos antes, os sacerdotes da Babilónia tinham previsto o fim do seu reinado, na análise do eclipse lunar a 20 de Setembro de 331 A.C.:

Mapa Astrológico

 

Podemos ver que o eclipse ocorreu sobre o signo de Peixes, com Saturno próximo. O eclipse começou a formar-se logo que a Lua surgiu no horizonte, e cerca 40 minutos depois, quando já estava completamente formado, Júpiter desapareceu a oriente. Na mesma altura soprou um vento de ocidente. Como Peixes representava o Império Persa, o desaparecimento de Júpiter e a ocorrência do eclipse no sexto mês do ano, que tinha o nome do Rei persa, eram indicadores para os sacerdotes que o fim da dinastia persa estava perto. O vento indicava que um perigo viria do ocidente. Os sacerdotes também registaram uma diferença de 8 graus entre o desaparecer do Sol a oriente e o aparecimento da Lua a ocidente. Esses graus convertidos em anos indicaram aos sacerdotes que a dinastia conquistadora iria continuar invencível durante oito anos.

Os sacerdotes de Bel tinham previsto, e registado numa tabula de argila, o fim da dinastia Aqueménida. Este eclipse ocorreu pouco antes da batalha de Gaugamela, a 1 de Outubro de 331 A.C., que iria dar a Alexandre o controlo do Império Persa. Durante os anos seguintes, Alexandre percorreria o seu novo domínio e venceria os seus adversários, sem experimentar o sabor da derrota. Chegaria mesmo a conquistar a província da Bacteriana, onde se situa o actual Afeganistão, o que constitui um feito notável, mesmo para quem actualmente tem meios muito mais sofisticados. Passados oito anos, em 323 A.C. Alexandre morre na sua nova capital, a Babilónia.

Chega! Perante toda esta informação, compreendemos agora que os sacerdotes procuraram proteger a vida do seu Rei, mantendo-o afastado da cidade da Babilónia. Mas a sua comunicação não foi a mais eficaz. A presença da Lua fraca, junto à cúspide da Casa XI, a Casa III dos sacerdotes, no horóscopo da primavera de 323 A.C., resultou num discurso vago, sem substância.

Como conclusão, podemos dizer que, se o nascimento de Alexandre contou com a intervenção divina, a sua morte encontrava-se escrita no céu.

 

FIM

 

Bibliografia:

Diários Astrológicos do Templo de

ARRIAN, The Campaigns of Alexander, Penguin Books, 1971
CHUGG, Andrew M., The Lost Tomb of Alexander the Great, Richmond Editions, 2004
HATZFELD, Jean, História da Grécia Antiga, Publicações Europa-América, 1977
HUNGER, Abraham Sachs and Hermann, Astronomical Diaries and related texts from Babylon, volume I, 1988 Viena
PLUTARCH, The Age of Alexander, Penguin Books, 1973
THUCYDIDES, History of the Peloponnesian War, Penguin Books, 1972
KAGAN, Donald, The Peloponnesian War, Harper Perennial, 2005
XENOPHON, The Persian Expedition, Penguin Books, 1972